A festa e a feira
O dia 1 de Julho de 1824 ficará marcado na História da Vista Alegre como o dia em que o Rei D. João VI concedeu o alvará para construção da Fábrica de Porcelanas. A partir de então, esta passou a ser a data de aniversário da Fábrica e das festas da padroeira local, a Nossa Senhora da Penha de França. O fundador da Vista Alegre, José Ferreira Pinto Basto, considerava a data tão importante que no seu testamento pediu que estas duas festas fossem para sempre celebradas no primeiro fim-de-semana do mês de Julho, desejo esse que tem sido concretizado até hoje.
Estas festividades são de grande importância para os trabalhadores e populações locais, sendo um dos momentos altos a procissão de Nossa Senhora da Penha de França, da qual fazem parte trabalhadores e vários descendentes da família fundadora. Até os antigos trabalhadores da Fábrica, que seguiram outros caminhos profissionais, que mudaram de casa, de terra ou de país, voltam em Julho para participarem na procissão. Outros pontos de interesse das festas são os concertos e a “venda de oportunidades”, isto é, a comercialização de restos de colecção das Fábricas do Grupo.
A Feira é outro dos acontecimentos festivos que a Vista Alegre promove, embora tenha sido estabelecida por alvará régio muito antes da criação da Fábrica, mais precisamente a 14 de Julho de 1663. É conhecida pelos habitantes locais como a “Feira dos 13”, já que é realizada todos os dias 13 de cada mês num espaço da Quinta cedido pela administração da empresa. Funciona como um mercado típico, onde se vende um pouco de tudo, e outrora foi de extrema utilidade para os habitantes da região, evitando as deslocações a Ílhavo ou Aveiro para abastecimento de bens. Hoje, e apesar das facilidades de transporte, a Feira tem mantido a sua vitalidade, registando sempre grande afluência de publico.
Clube de Futebol
Para além de pioneira no fabrico de porcelanas, a Família Pinto Basto teve um papel fundamental na introdução do futebol em Portugal. Foram os bisnetos do fundador da Vista Alegre que introduziram a prática deste desporto no nosso país, Guilherme, Eduardo e Frederico Pinto Basto estudaram em Inglaterra, país que desenvolveu a modalidade, como hoje a conhecemos, em meados do séc. XIX. De regresso a Portugal, trouxeram este desporto consigo e que organizaram em Outubro de 1888 o primeiro jogo de futebol, em Cascais.
Em 22 de Janeiro de 1889, organizaram o primeiro jogo público em Portugal, que se realizou no Campo Pequeno em Lisboa, contra uma equipa inglesa, que os portugueses venceram por 1 ¬ 0. Com outros estudantes que regressavam de Inglaterra e com os ingleses que viviam em Portugal, o desporto foi ganhando cada vez mais adeptos e não tardou a que surgissem vários clubes em Lisboa, Porto e Aveiro.
A profissionalização deste desporto durante a primeira metade do séc. XX foi o passo seguinte. Por ter sido impulsionado pela família Pinto Basto, o futebol começou a jogar-se desde os primeiros tempos na Vista Alegre. Desde o último quartel do séc. XIX era frequente os trabalhadores juntarem-se antes do dia de trabalho, num campo junto à Fábrica.
O clube de futebol da Fábrica da Vista Alegre manteve-se activo e foi ganhando força. Em 1952 foi inscrito na Federação Portuguesa de Futebol com o nome de Sporting Clube da Vista Alegre e com o estatuto de filial do Sporting Clube de Portugal. Após uns anos de actividade interrompida, por ocasião da comemoração dos 50 anos do clube deu-se o regresso às competições, com uma nova equipa de juniores e outra de seniores.
Histórias
Uma das histórias curiosas da vida da Fábrica da Vista Alegre é a história do Pato e da Pata. Consta que um dia houve uma importante encomenda de um pato em porcelana. O artista incumbido de executar essa encomenda disse que, para fazer a obra na perfeição, precisava de ter como modelo um pato de verdade. Os seus aprendizes depressa foram buscar o pato mais bonito da Quinta. Porém, passados uns dias, o pato começou a perder penas e a ficar mirrado e feio. Preocupado com o seu modelo, o mestre pediu aos aprendizes que trouxessem um veterinário para ver o que se passava com o animal. Quando o veterinário chegou, fez um breve exame ao pato, depressa concluindo que o pato estava a ficar doente por falta de companhia: precisava de ter uma pata por perto. Lá foram os aprendizes buscar uma bela pata para acompanhar o pato durante os seus tempos de modelo. O pato recuperou rapidamente a sua penugem e dizem que a peça ficou belíssima!
Os caminhos de acesso à fábrica eram bastante lamacentos e acidentados no inverno pelo que as delicadas peças de porcelana ao serem transportadas em primitivos carros de bois, acabavam por se partir em grande número. O fundador da VA José Ferreira Pinto Basto não se deixou impressionar por tal dificuldade e rapidamente encontrou uma solução; mandou vir de Angola 2 camelos que passaram a transportar em segurança as peças de porcelana através das praias planas e arenosas, até à estação de caminho de ferro. Os camelos, animais até aí desconhecidos na região, causavam tão grande sensação entre a população local que, segundo se diz, até os fiéis abandonavam a missa a meio para admirar tão estranhas bestas…